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Entrevista concedida por Paul Singer, secretário nacional de Economia Solidária (Senaes) para a Unisol Brasil, durante o evento  ‘Seminário Empresas Recuperadas por Trabalhadores’, ocorrido de 11 a 13 de dezembro de 2014, em São Bernardo do Campo, em São Paulo.

Unisol Brasil – Como o senhor avalia o evento de hoje, trouxe alguma novidade apresentada na pesquisa ou gostaria de destacar algum aspecto de sua experiência pessoal ?

Paul Singer – Não houve novidade para mim porque eu participei da banca de mestrado de um grupo e do outro me solicitaram para que eu fizesse a introdução de um livro (grupos que estudam as empresas recuperadas, sendo que um deles, o GPERT, fez apresentação de pesquisa e livro durante o seminário). As pesquisas são bem interessantes e espero que continuem sendo feitas até para guiar as políticas públicas que a gente faz.

UB – Em relação às dificuldades de financiamento que as empresas que querem se recuperar ou em fase de recuperação enfrentam: na sua opinião o que poderia ser feito de forma mas efetiva para mudar esta situação?

PS – Estamos todos apostando no BNDES. Eu conheço a alta direção da instituição, o Coutinho meu aluno (quando Paul Singer lecionava em universidades). Eles realmente reduziram as exigências para as nossas cooperativas, criando condições específicas para elas, menos exigentes do que para o público ‘externo’. Mas eu não saberia dizer qual o número de empréstimos viabilizados por esta política.

UB – Sobre estas experiências que foram narradas aqui por funcionários, cooperados, estudiosos e autoridades relacionadas às empresas recuperadas, o que o senhor acha em relação ao caminho que pode ser tomado para uma melhoria nesse setor ? Eventos como este podem ajudar efetivamente na mudança em médio prazo?

PS – Eu acho que deve mudar, evidentemente, mas não está muito claro para mim qual será esta mudança. Eu acho que o BNDES já fez as concessões que poderia fazer. Nós temos um sistema de finanças solidárias que é alimentado pelas cooperativas e demais empreendimentos solidários, constituído pelos bancos comunitários, que é a forma mais interessante de organização financeira, embora existam outras. Eles são vitais para os pobres das cidades, a comunidade usa muito estes bancos, alguns desses bancos são correspondentes da Caixa Econômica Federal e de vez em quando eles conseguem algum recurso com esta instituição, mas o aporte ainda é muito precário. Atualmente eu defendo que nós deveríamos transformar estes bancos em cooperativas de crédito, que são autogestionárias, como as demais cooperativas. A comunidade adota o banco pois é bom para eles. Da forma como estão estes bancos não podem movimentar maior volume de recursos, pois são um ‘banco fantasia’, não tem autorização para tal. Esse movimento de bancos comunitários começou lá no Ceará. O Banco Palmas, de Fortaleza (CE), tinham se decidido a se transformar em cooperativa, mas eles desistiram, não sei dizer a razão. Eu não vejo outra saída, para que eles possam receber continuamente o resultado do esforço deles.

UB – O senhor sente que o movimento sindical, social e acadêmico está mais unido, inclusive por conta de eventos como este, tentando deixar as diretrizes mais claras para o debate das políticas públicas ?

PS – Estamos há mais de onze anos na Secretaria (Senaes), então vimos avanços reais. Apoiamos vários eventos e discussões ao longo dos últimos anos que tem ajudado na construção dessas políticas (públicas). Na área de comercialização houve este avanço, inclusive por conta do sistema de comércio justo, que abre mais espaços para as vendas seguindo as regras desse tipo de comércio.

UB – E com o segundo momento Governo Dilma, com os antagonismos que ficaram evidentes durante e depois da campanha para presidente, o que o senhor vê como cenários e perspectivas ?

PS – Tenho razões para ser otimista. Estamos todos interessados nas empresas recuperadas. Não deu tempo comentar aqui no evento, mas o governo de Cuba está querendo desestatizar. Ele aprovou a formação de 500 cooperativas, que irão assumir empresas do governo, que estavam funcionando muito mal. Por exemplo, um clube noturno de Havana, de dança e diversão, que vivia às moscas, foi assumido pelos funcionários que o transformaram em cooperativa e agora o movimento no local deu um salto, e os cooperados triplicaram os seus rendimentos. O Governo tinha decidido entregar as estatais para pequenos empresários e depois mudou o direcionamento e resolveu incentivar a organização de cooperativas. Existem muitas cooperativas da área gastronômica e de comércio sendo organizadas em Cuba. Depois da grande crise econômica vários países tem incentivado a formação de cooperativas. A França instituiu uma lei que obriga as empresas que irão decretar falência informar antes aos seus trabalhadores a situação para que os mesmos tenham a opção de se organizarem numa cooperativa e assumir a companhia. Na Itália também a legislação é favorável para as cooperativas, assim como vários outros países.

UB – No Brasil atualmente não vivemos a crise do desemprego….

PS – Temos sim uma situação de pleno emprego, mas vivemos uma situação trágica nos anos 90 com a abertura das importações sem que houvesse um planejamento. A Economia Solidária surgiu dessa experiência trágica, muitas empresas quebraram e milhares e milhares de trabalhadores perderam os seus empregos e ficaram sem condições mínimas de sobrevivência; muitos foram morar na rua. Eu era o secretário de planejamento de São Paulo e tivemos o primeiro censo de população de rua do município nesse período.