O mundo do trabalho vem mudando muito ao longo das últimas décadas. Mas uma coisa é certa: uma das funções do poder público em relação a isso é estimular e oportunizar novas formas e relações de trabalho, ampliando a inclusão das pessoas, gerando trabalho e renda.

Em dezembro de 2014 teve início, no município de São Paulo, uma experiência pioneira ancorada na Economia Solidária (Ecosol). O Projeto Ecosol SP Como Estratégia de Desenvolvimento (Projeto Ecosol SP), promovido pela Secretaria Municipal do Trabalho e Empreendedorismo (SMTE) e executado, por meio de convênio, pela Central de Cooperativas e Empreendimentos Solidários do Brasil (Unisol Brasil), mapeou empreendimentos solidários, promoveu a criação e a atuação de redes e formações, criou oportunidades de comercialização e voltou a incentivar um ecossistema que havia se dispersado em anos anteriores, quando essa economia deixou de inspirar políticas públicas no município.

Milhares de pessoas foram atendidas pelo Projeto em suas diferentes fases, guiadas por metodologias peculiares, erguidas da maneira tal qual gira a Economia Solidária: construídas conjuntamente, não apenas pelos educadores e gestores do Projeto, mas com a participação permanente dos empreendimentos e das pessoas.

A Economia Solidária apresenta-se como outra forma de relação social, envolvendo produção, comercialização e consumo, e se efetiva por meio de um processo educativo, objetivando mudanças culturais no âmbito individual e social. De fato, não seria possível pensar uma intervenção que fosse concretizada sem a participação direta daqueles que são o público alvo da mesma, e esse foi um dos pilares de implementação do Projeto.

Se no momento inicial o desafio era mapear os empreendimentos dispersos pela capital paulista, contatá-los e convidá-los a formar grupos para atuação em redes, nos tempos seguintes as tônicas foram ampliar público atendido em termos de diversidade, reforçar as redes e levar o sopro da Ecosol a um público novo, interessado em empreender, mas ainda não picado por essa mosca.

Os diferentes momentos do Projeto ao longo dos três anos trouxeram novas perspectivas, novos públicos e contribuíram significativamente para o crescimento das Redes.

Em 2015, foram contratados educadores para mapear e mobilizar coletivos e empreendimentos a participarem do Projeto. A intenção era conformar Redes de artesanato, costura, alimentação, ecoturismo, economia das culturas e cooperativismo social. Essas Redes, inicialmente chamadas de setoriais, tiveram papel fundamental no começo do Projeto, num universo onde o boca a boca, ao menos naquele momento, ainda era o melhor dos jeitos de articular esse universo.

Os convites iniciais feitos pela equipe multidisciplinar de educadores a empreendimentos seguiram reverberando. Um foi contando para o outro, tal qual bola de neve, e de repente as Redes já se viram com dezenas de pessoas se movimentando em grupos de trabalho para estruturar o que viria pela frente. A partir do levantamento de demandas para cada área, o Projeto passou a estruturar suas formações e atividades, que muitas vezes tinham especificidades próprias para cada uma dessas Redes. E foi assim, promovendo reuniões e formações a partir desse quadro pintado pelos grupos, que ele começou a se desenvolver, alimentando cada vez mais a lógica da atuação em rede. Afinal, uma andorinha só não faz verão.

Também naquele ano as Redes participaram de eventos que contribuíram não só para azeitar a atuação em grupo, como também para dar visibilidade a essa economia, com destaques em especial para o N Design SP – encontro nacional de estudantes de design, área parceira da Economia Solidária há muito tempo no município –, o Design Week, considerado o maior evento de design da América Latina, e a Craft Design, uma das principais feiras de negócios do Brasil na área de decoração, design e arte. Foi promovido também um grande evento de cultura e ocupação urbana no Vão do MASP, em plena Avenida Paulista.

Essa primeira fase do Projeto buscou de fato construir de forma colaborativa com o movimento de Economia Solidária uma proposta de política pública. Foram realizadas 80 atividades de mobilização e formação, das quais participaram mais de 3.300 pessoas e 312 empreendimentos organizados nas seis Redes de atuação já citadas, além de mobilizar dezenas de instituições de apoio e fomento à Ecosol.

Em 2016, a Economia Solidária ganhou um espaço próprio em São Paulo, com o início do funcionamento da Incubadora Pública de Empreendimentos Econômicos Solidários, inaugurada em novembro do ano anterior. Com isso, ampliou-se consideravelmente o perfil de público atendido. Parte dos grupos naquele ano foi proveniente de articulações com a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC). Tal escolha se deu pelo entendimento que o referido órgão lida cotidianamente com uma parcela da população em situação de extrema vulnerabilidade e em geral excluída do mercado de trabalho, com pouco acesso à educação formal e qualificação profissional.

Assim, população em situação de rua, imigrantes, juventude periférica e LGBTT foram inseridos na estratégia de implementação da política pública. A Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres (SMPM) também teve participações pontuais, encaminhando pessoas com interesse e necessidade de serem atendidas pelo Projeto, sobretudo as mulheres vítimas de violência e em situação de abrigo. Junto à Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS), para além do público indicado, havia parcerias na disponibilização de bolsas do Programa Operação Trabalho (POT). A Secretaria de Habitação (SEHAB) firmou também parceria com a SMTE para promover alternativas de trabalho e renda para a população em áreas desapropriadas e em conjuntos habitacionais – Jardim Edite, Heliópolis e Jardim São Francisco.

Muitos eventos foram organizados, como feiras e festivais de Economia Solidária, de modo a impulsionar a comercialização dos produtos e serviços dos empreendimentos atendidos e dar maior visibilidade para a Ecosol no município, visado fortalecer as referidas iniciativas e a própria política pública. Dentre os parceiros e parceiras da iniciativa privada e sociedade civil, destacam-se naquele ano a Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares Fundação Getúlio Vargas, a Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da Universidade de São Paulo, a Universidade Presbiteriana Mackenzie, Instituto Léo Madeiras, Faculdade de Engenharia da Universidade de São Paulo (POLI-USP), Instituto Kairós e Conexão Berrini.

Após um ano de funcionamento da Incubadora, foram mobilizadas 1.066 pessoas, 26 grupos e redes, 187 empreendimentos em nove áreas de atuação econômica (alimentação, artesanato, construção civil, costura, cultura, ecoturismo, estética, hortas e marcenaria), um ponto de empreendimentos que reúne várias atividades – o Ponto de Economia Solidária e Cultura do Butantã -, e realizadas dezenas de eventos. O setorial de cooperativismo social, que funcionou no primeiro ano do Projeto, foi desativado ao se perceber que seus integrantes passaram a se inserir nas outras Redes, buscando especificidades relacionadas às suas áreas de atuação.

O ano de 2017 levou o Projeto a uma nova mudança metodológica, com uma diretriz de ampliar e diversificar os públicos e também promover adequações a uma reestruturação orçamentária. Isso trouxe a criação de uma metodologia de formação estruturada em cinco módulos, de modo que pudesse atrair também empreendedores e empreendedoras que muitas vezes nunca tinham tido contato com a Economia Solidária, ao mesmo tempo em que o atendimento aos grupos e Redes já incubados pelo Projeto continuava a ser feito. A formação passou a ser mais densa, com foco na construção e materialização dos empreendimentos e negócios, formada por cinco módulos: Economia Solidária; Produto, serviço e comunicação; Módulo prático em costura, artesanato e gastronomia; Plano de negócios e formalização; Assessoria de negócios.

Os três primeiros módulos tinham uma lógica mais preparatória, voltados para quem estava se iniciando nesse universo. Já os dois últimos eram focados em quem já tinha um empreendimento. Foram realizados três ciclos dessa formação ao longo de 2017, atendendo centenas pessoas e empreendimentos.

Ao mesmo tempo, grupos produtivos e Redes passaram a usar os espaços da Incubadora cada vez mais como lugar de produção, em especial no caso das áreas de alimentação e costura. Os cursos de gastronomia e de costura passaram a dividir a cozinha e a oficina de máquinas com atividades práticas de produção. A Incubadora, instalada em um prédio junto com o Centro de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo, por si só um lugar acolhedor da diversidade, ampliou ainda mais esse espectro com a chegada desse novo público, que em sua grande maioria nunca havia tido contato com a Economia Solidária.

Essa publicação é uma síntese do trabalho realizado ao longo de 1.095 dias (três anos). Que, para além do que resumidamente foi pontuado nesta introdução, trouxe transformações que permanecem e reverberam. A rearticulação de um ecossistema de Economia Solidária que se encontrava desmobilizado no município. A formação de Redes de empreendimentos setoriais, que além de trabalhar de modo coletivo, passaram a trocar serviços entre si. A participação em eventos e a criação de novos espaços onde essa produção pode ser comercializada. A articulação de uma rede de parceiros e apoiadores que tem ajudado nessa mobilização e na expansão do Projeto e seus resultados. A Economia Solidária chegando a novos públicos, promovendo expansão de visões e perspectivas de novas e inovadoras formas de trabalho. A atuação intersetorial encorpando uma política pública que se mostra absolutamente necessária no mundo de hoje.

A informação encontra-se aqui organizada por ano de Projeto, tendo em vista a evolução da metodologia ao longo do tempo e os resultados diversos obtidos nesses contextos. Além de trazer dados sobre metodologia, atendimentos e resultados, os anos aqui são pontuados por depoimentos dos participantes do Projeto, revelando o potencial de transformação de vidas ao colocar o ser humano no centro dos processos econômicos. Que é como a Economia Solidária de fato funciona.

Transitar pela Incubadora hoje é perceber que a inovação e novas formas de trabalho estão de fato ao alcance de pessoas em situação de vulnerabilidade e dos empreendedores/as em geral. Empreender socialmente, solidariamente, coletivamente, podia parecer um horizonte um tanto quanto distante para o novo público que se juntou ao Projeto em 2017, pessoas que têm sua ideia ou seu negócio e sempre pensaram em empreender sozinhas. No entanto, a própria atmosfera de encontro e de troca que aquele espaço proporciona, e o contato com as Redes formadas, faz com que se perceba que um caminho mais coletivo parece ser o mais acertado.

A Incubadora é um microcosmos do que acontece no mundo real. Com uma diferença: o acolhimento universal. A diversidade é um ponto importante para a inovação e para as oportunidades de negócio. Nesse momento, tal como uma mistura de temperos faz explodir na boca sabores indescritíveis, essas diferenças fazem o bolo crescer. Tanto que vocabulários antes antagônicos, que raramente estariam juntos numa mesma frase, se encontram aqui numa perspectiva absolutamente nova. O encontro do mundo do empreendedorismo, amplamente focado na competição, com o mundo da Economia Solidária e do cooperativismo, focado na colaboração, é uma evidência de que esse universo é vivo, e como vivo, mutável. A Incubadora foi o ponto onde esse diálogo se tornou possível.

E quem chegou no último ano do Projeto, atraído pelos cursos de formação, querendo iniciar ou melhorar seu próprio negócio, com certeza saiu picado pela mosca da Economia Solidária e percebeu que há um outro jeito de fazer as coisas girarem.

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